Onde começa e acaba a classe média? (INE e Finanças)

Onde começa e acaba a classe média? Segundo dados da Autoridade Tributária, há um pouco mais de 5 milhões de agregados familiares em Portugal.

Talvez seja chocante para muitos dos nossos leitores que provavelmente não são a representação perfeita da população portuguesa em termos de rendimentos coletável, mas a verdade é que, precisamente usando o rendimento coletável, cerca de 9 em cada 10 agregados familiares portugueses ganha menos de €20.000 por ano. Ou seja, por exclusão de parte, apenas cerca de 10% são tributados por valores acima dos €20.000.

Note-se que a distribuição que a seguir deixamos não será igual em todas as regiões do país. Nas grandes cidades e, em especial, em Lisboa, os níveis médios de ensino são superiores, os salários médios são superiores, e muitos dos mais abastados residem na região pelo que é muito provável que a correlação de pesos relativos seja diferente, contendo maior proporção de agregados com mais de €20.000 de rendimento coletável por ano. Mas o que é um facto é que quando consideramos toda a população nacional, chegamos à conclusão que o rendimento coletável acima de €3.000/mês é algo a que apenas cerca de uma em cada 10 famílias está a atingir.

Onde começa e onde acaba a classe média? Devemos usar medidas de comparação relativa? Devemos usar uma fasquia monetária independentemente da distribuição de rendimentos no país? Seja qual fora a opção de cada um, o que é certo é que há mais de dois terços dos agregados familiares que têm um rendimento coletável anual inferior a €7.000 ou seja €583 por mês considerando 12 meses ou €500 considerando 14.

Quem recebem €40.000 é rico? E €50.000? Em termos relativos, está muito melhor do que 9 em cada 10; em termos absolutos se calhar tem dificuldades em chegar ao fim do mês com as despesas que terá na região onde reside e com os encargos familiares que terá às costas. Mas num mesmo país com esta distribuição de rendimento, e mesmo admitindo que haverá medidas mais justas de comparação, muito dificilmente deixará de ser identificado como estando claramente acima da média. Por mais distante que essa família esteja do mais ricos dos mais ricos, face ao grande contingente de conterrâneos, a sua posição é evidente.

Convém que qualquer discussão sobre o tema se centre em factos. Eis aqui alguns.

Rendimento coletável Número aproximado de agregados % face ao total
Até 7000                                             3.500.000

67,9

7 a 20.000                                             1.200.000

23,3

20.000 a 40.000                                                 360.000

7,0

40.000 a 80.000                                                   80.000

1,6

Acima de 80.000                                                   12.000

0,2

Total                                             5.152.000

Um último dado. Usando o rendimento monetário por adulto equivalente (que corrige para a composição do agregado familiar) o INE estima que metade da população receba até €703/mês e a outra metade acima disso.

O conceito de rendimento é distinto do rendimento coletável, daí as diferenças, mas apesar delas, parece evidente e indesmentível o facto de que há uma enorme percentagem da população portuguesa encostada aos níveis mais baixos de rendimento, níveis muito inferiores aos valores médios que se encontrarão a zona mais rica do país.

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